segunda-feira, 10 de novembro de 2025

LÍNGUA PORTUGUESA - LEITURA E INTERPRETAÇÃO

 

HOMEM NU – FERNANDO SABINO

        Ao acordar, disse para a mulher:

      — Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa.  Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.

      — Explique isso ao homem — ponderou a mulher.

      — Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém.   Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.

      Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão.  Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.

      Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:

       — Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.

       Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.

        Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares...  Desta vez, era o homem da televisão!

        Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:

        — Maria, por favor! Sou eu!

        Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.

        Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.

        — Ah, isso é que não!  — fez o homem nu, sobressaltado.

        E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pelo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!

        — Isso é que não — repetiu, furioso.

        Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar.  Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador.  Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer?  Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.

        — Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.

         Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:

        — Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso.  — Imagine que eu...

        A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:

        — Valha-me Deus! O padeiro está nu!

        E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:

        — Tem um homem pelado aqui na porta!

        Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:

        — É um tarado!

        — Olha, que horror!

        — Não olha não! Já pra dentro, minha filha!

        Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.

        — Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.

        Não era: era o cobrador da televisão.


Fernando Sabino. Extraída do livro de mesmo nome, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 65

Hora de inferir sentido às palavras e/ou expressões usadas ao longo do texto!

 

Vigarice: Ato de trapaça; fraude.

Lanço: Parte de uma escada entre dois patamares sucessivos; o mesmo que lance.

Grotesco: Ridículo, extravagante.

Encetar: Iniciar, começar.

Em pelo: Nu, pelado.

Pesadelo de Kafka: Referência ao escritor checo Franz Kafka, que criou histórias fantásticas com toques de terror e situações incomuns. Muitas vezes, seus personagens se sentiam assustados e em agonia, como se vivessem um pesadelo.

Regime do Terror: Referência ao período da Revolução Francesa compreendido entre 31 de maio de 1793 e 27 de julho de 1794, em que milhares de pessoas foram executadas na guilhotina por se oporem ao governo e às ideias de Maximilien de Robespierre.

Estarrecida: Espantada, horrorizada, perplexa.

Radiopatrulha: Veículo da polícia, equipado com rádio.

 

Vamos entender melhor o texto?

 

01 – O que gerou o conflito da narrativa?

      O homem não trouxe o dinheiro da cidade para pagar a prestação da televisão.

 

02 – Qual é o enredo ou conflito da narrativa?

      Quando o homem pede a mulher para ficar quieta dentro de casa, quando o cobrador da televisão chegasse, pensasse que não havia ninguém, o deixasse bater na porta até cansar, no outro dia ele pagaria.

 

03 – Que palavras ou expressão do texto podem substituir “parar repentinamente”?

      Interromper-se de súbito (linha 15).

 

04 – Qual a causa ou motivo que levou o homem a se esconder para não debitar a dívida?

      Ele estava sem dinheiro para pagá-la, envergonhado preferiu se esconder e assim teria tempo suficiente para debitar sua dívida.

 

05 – Onde esta história se passa?

Em um apartamento.

 

06 – Copie um trecho do texto que expresse ideia de humor.

      A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito: “Valha-me Deus! O padeiro está nu!”.

 

07 – Copie do texto um trecho referente ao tempo cronológico.

      [...] Deixa ele bater até cansar... amanhã eu pago.

08 – Quais são os personagens principais do texto?

      O homem e sua mulher.

 

09 – Quais são os personagens secundários?

      O cobrador da televisão e os vizinhos.

 

10 – Qual a finalidade, motivo pelo qual, o cronista nos propõe esta crônica?

      Mostra-nos que casos como este acontecem frequentemente no cotidiano.

 

11 – De que maneira o cronista se expressa para finalizar sua história?

      De forma surpreendente e humorística.

 

12 – A narrativa desta crônica está em que pessoa verbal?

      Em terceira pessoa.

 

 

 

13 – Quais os tempos verbais predominantes nesta crônica?

      Pretérito perfeito e imperfeito do modo indicativo.

 

14 – O homem saiu do apartamento com qual objetivo e como ele estava?

      Para pegar o embrulho de pão deixado pelo padeiro e ele estava nu, uma vez que havia se despido para tomar banho, mas sua esposa já havia entrado no banheiro.

 

15 – Qual o efeito cômico que o autor explora nesta situação corriqueira?

      O homem nu fica preso fora do seu apartamento.

 

16 – Dividindo-se a narrativa em três partes, descreva com uma frase:

 

·         A situação inicial: Casal não deseja ser incomodado por um cobrador e decide não abrir a porta do apartamento para ninguém naquele dia.

 

·         O conflito: Homem sai nu do apartamento para pegar o pão, mas a porta, impulsionada pelo vento, fecha-se atrás dele, impedindo-o de voltar para dentro do apartamento.

 

·         A resolução final: O homem consegue entrar em casa, mas acaba abrindo a porta para o cobrador, porque esquece que estava se escondendo.

 

Aprofundando ainda mais...

 

17 – No texto “Homem nu”, é possível observar traços de linguagem informal. Dentre as opções apresentadas, a única em que ocorre esse nível linguístico é:

a) “... Agarrou-se à porta do elevador...”

b) “... para ele pensar que não tem ninguém...” X

c) “... Enquanto esperava, resolveu fazer um café...”

d) “... Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro...”

 

18 – No que diz respeito ao modo de organização do discurso, é possível dizer que o texto de Fernando

Sabino é predominantemente:

a) narrativo X

b) descritivo

c) expositivo

d) argumentativo

 

19 - “... dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho...” A preposição é uma classe gramatical que, dentro de uma estrutura frasal, pode apresentar valor semântico. A preposição sublinhada apresenta, neste contexto, valor semântico de:

a) causa

b) tempo

c) lugar

d) finalidade X

 

20 - “... Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro...”. A passagem acima pode ser reescrita, sem prejuízo ao sentido original entre as orações, da seguinte forma:

a) “...Já que estava completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro...” X

b) “...Todavia estava completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro...”

c) “...Conforme estava completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro...”

d) “... Tanto estava completamente nu, que olhou com cautela para um lado e para outro...”

 

21 - “...Aterrorizado, precipitou-se até a campainha...”. O verbo sublinhado pode ser substituído, sem prejuízo de sentido, neste contexto por:

a) voltou

b) correu

c) recuou

d) caminhou X

 

22 - “...a empregada passava, vagarosa, encetando a subida...”.  Substituindo o verbo em destaque por outro de sentido equivalente, temos a passagem:

a) “...a empregada passava, vagarosa, relutando a subida...”

b) “...a empregada passava, vagarosa, ensaiando a subida...”

c) “...a empregada passava, vagarosa, almejando a subida...”

d) “...a empregada passava, vagarosa, iniciando a subida...” X

 

23 - “...Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta...”. O período destacado apresenta duas orações unidas por um sinal de pontuação: a vírgula. Caso substituíssemos a vírgula, de forma a manter o sentido original, por um conectivo, este teria o valor semântico de:

a) causa

b) tempo X

c) adição

d) oposição

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