quinta-feira, 3 de julho de 2025

Círculo de Leitura

 Círculo de Leitura

                                                                     Literatura de Cordel

Literatura de Cordel é uma manifestação da cultura popular brasileira que teve origem no Nordeste. É composta por poemas escritos em linguagem popular, ricos em rimas e na perfeição métrica dos seus versos. Originalmente, os poemas de cordel eram vendidos em feiras, onde ficavam à mostra da população pendurados em cordéis ou barbantes.

Os locais onde ela tem grande destaque são os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Pará, Rio Grande do Norte e Ceará. Por esse motivo, o cordel nordestino é um dos mais destacados no país. No Brasil, a literatura de Cordel adquiriu força no século XX, sobretudo entre 1930 e 1960. Muitos escritores foram influenciados por este estilo, dos quais se destacam: João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna e Guimarães Rosa.

Origem do cordel

O termo “Cordel” é de herança portuguesa. Essa manifestação artística foi introduzida por eles no Brasil em fins do século XVIII. Na Europa, ela começou a aparecer no século XII em outros países (França, Espanha e Itália) e se popularizando no período do Renascimento. Em sua origem, muito poetas vendiam seus trabalhos nas feiras das cidades. Todavia, com o passar do tempo e o advento do rádio e da televisão, sua popularidade foi decaindo.

Características da literatura de cordel

·    Tradição literária regional

·    Oposta à literatura tradicional

·    Gênero literário em versos

·    Temas populares e da cultura popular brasileira

·    Linguagem popular, oral, regional e informal

Literatura de CordelEsse tipo de manifestação tem como principais características a oralidade e a presença de elementos da cultura brasileira. Sua principal função social é de informar, ao mesmo tempo que diverte os leitores. Oposta à literatura tradicional (impressa nos livros), a literatura de cordel é uma tradição literária regional. Sua forma mais habitual de apresentação são os “folhetos”, pequenos livros com capas de xilogravura que ficam pendurados em barbantes ou cordas, e daí surge seu nome.A literatura de cordel é considerada um gênero literário geralmente feito em versos. Ela se afasta dos cânones na medida em que incorpora uma linguagem e temas populares. Em relação à linguagem e o conteúdo, a literatura de cordel tem como principais características:

·    Linguagem coloquial (informal);

·    Uso de humor, ironia e sarcasmo;

·    Temas diversos: folclore brasileiro, religiosos, profanos, políticos, episódios históricos, realidade social, etc.;

·    Presença de rimas, métrica e oralidade.

Leitura de cordéis

CLÁSSICOS DO CORDEL: PROEZAS DE JOÃO GRILO


Na noite que João nasceu,
Houve um eclipse na lua,
E detonou um vulcão
Que ainda continua
Naquela noite correu
Um lobisomem na rua.

Assim mesmo ele criou-se
Pequeno, magro e sambudo
As pernas tortas e finas
Boca grande e beiçudo
No sitio onde morava
Dava noticia de tudo.
João perdeu o pai
Com sete anos de idade
Morava perto de um rio
Ia pescar toda tarde
Um dia fez uma cena
Que admirou a cidade.

O rio estava de nado
Vinha um vaqueiro de fora
Perguntou: - Dará passagem?
João Grilo disse: - Inda agora
O gadinho de meu pai
Passou com o lombo de fora.

O vaqueiro botou o cavalo
Com uma braça deu nado
Foi sair já muito embaixo
Quase que morre afogado
Voltou e disse ao menino:
- Você é um desgraçado!

João Grilo foi ver o gado
Para provar aquele ato
Veio trazendo na frente
Um bom rebanho de pato
Os patos passaram n'água
João provou que era exato

Um dia a mãe de João Grilo
Foi buscar água à tardinha
Deixou João Grilo em casa
E quando deu fé lá vinha
Um padre pedindo água
Nessa ocasião não tinha

João disse: - Só tem garapa
Disse o padre: - Donde é?
João Grilo lhe respondeu:
É do engenho Catolé...
Disse o padre: - Pois eu quero
João levou numa coité.

O padre bebeu e disse:
- Oh! que garapa boa!
João Grilo disse: - Quer mais?
O padre disse: - E a patroa,
Não brigará com você?
João disse: - Tem uma canoa.

João trouxe outra coité
Naquele mesmo momento
Disse ao padre: - Beba mais
Não precisa acanhamento
Na garapa tinha um rato
Estava podre o fedorento!

O padre disse: - Menino,
Tenha mais educação
E por que não me disseste?
Oh! natureza do cão!
Pegou a dita coité
Arrebentou-a no chão

João Grilo disse: - Danou-se!
Misericórdia, São Bento!
Com isto mamãe se dana
Me pague mil e quinhentos
Essa coité, seu vigário
É de mamãe mijar dentro!

O padre deu uma pôpa
Disse para o sacristão
- Esse menino é o diabo
Em forma de cristão!
Meteu o dedo na goela
Quase vomita o pulmão!

João Grilo ficou sorrindo
Pela cilada que fez
Dizendo: - Vou confessar-me
No dia sete do mês
Ele nunca confessou-se
Foi essa a primeira vez

João Grilo tinha um costume
Pra toda parte que ia
Era alegre e satisfeito
No convívio da alegria
João Grilo fazia graça
Que todo mundo sorria

Num dia de sexta-feira
Às cinco horas da tarde
João Grilo disse: - Hoje à noite
Eu assombro aquele padre
Se ele não perdoar-me
Na igreja há novidade...

Pegou uma lagartixa
Amarrou-a pelo gogó
Botou-a numa caixinha
No bolso do paletó
Foi confessar-se João Grilo
Com paciência de Jó.

As sete horas da noite
Foi ao confessionário
Fez logo pelo sinal
Posto nos pés do vigário
O padre disse: - Acuse-se!
João disse o necessário.

Eu sou aquele menino
Da garapa e da coité.
O padre disse: - Levante-se,
Eu já sei você quem é;
João tirou a lagartixa
Soltou-a junto do pé.

A lagartixa subiu
Por debaixo da batina
Entrou na perna da calça
Tornou-se feia a buzina
O padre meteu os pés
Arrebentou a cortina.

Jogou a batina fora
Naquela grande fadiga,
A lagartixa cascuda
Arranhando na barriga.
João Grilo de lá gritava:
- Seu padre, Deus lhe castiga!

O padre impaciente
Naquele turututu
Saltava pra todo lado
Que parecia um timbu
Terminou tirando as calças
Ficando o esqueleto nu.

João disse: - Padre é homem?
Pensei que fosse mulher,
Anda vestido de saia
Não casa porque não quer
Isto é que é ser caviloso

Cara de mata bebé!

O padre disse: - João Grilo,
Vai-te daqui infeliz!
João Grilo disse: - Bravo
Do vigário da matriz
É assim que ele me paga
O benefício que fiz?

João Grilo foi embora
O padre ficou zangado
João Grilo disse: - Ora sebo,
Eu não aliso c'roado
Vou vingar-me duma raiva
Que tive o ano passado.

No subúrbio da cidade
Morava um português
Vivia de vender ovos
Justamente nesse mês
Denunciou de João Grilo
Pelas artes que ele fez.

João encontrou o português
Com a égua carregada
Com duas caixas de ovos
João lhe disse: - Oh! camarada
Deixa eu dizer a tua égua
Uma pequena charada.

O português disse: - Diga!
João chegou bem no ouvido
Com a ponta do cigarro
Soltou-a dentro escondido
A égua meteu os pés
Foi temeroso estampido.

Derrubou o português
Foi ovos pra todo lado
Arrebentou a cangalha
Ficou o chão ensopado
O português levantou-se
Tristonho e todo melado.

O português perguntou:
- O que foi que tu disseste
Que causou tanto desgosto
A esse animal agreste?
- Eu disse que a mãe morreu...
O português respondeu:
- Oh égua besta da peste!

João Grilo foi à escola
Com sete anos de idade
Com dez anos ele saiu
Por espontânea vontade
Todos perdiam pra ele
Outro Grilo como aquele
Perdeu-se a propriedade.

João Grilo em qualquer escola
Chamava ao povo atenção
Passava quinau nos mestres
Nunca faltou com a lição
Era um tipo inteligente
No futuro e no presente
João dava interpretação.

Um dia pergunta ao mestre:
- O que é que Deus não vê,
E o homem vê qualquer hora?
Diz ele: - Não pode ser
Pois Deus vê tudo no mundo
Em menos de um segundo
De tudo pode saber.

João Grilo disse: - Qual nada
Quede os elementos seus?
Abra os olhos, mestre velho
Que vou lhe mostrar os meus
Seus estudos se consomem
Um homem vê outro homem
Só Deus não vê outro Deus!

João Grilo disse: - "Seu" mestre,
Me diga como se chama
A mãe de todas as mães?
Tenha cuidado no drama.
O mestre coça a cabeça
Disse: - Antes que me esqueça
Vou resolver o programa

- A mãe de todas as mães
É Maria Concebida
João Grilo disse: - Eu protesto
Antes dela ser nascida
Já outra mãe existia
Não foi a Virgem Maria
Oh que resposta perdida!

João Grilo disse depois
Num bonito português:
-A  mãe de todas as mães
Já disse e digo outra vez
Como a escritura ensina
É a natureza divina
Que tudo criou e fez.

- Me responda professor
Entre grandes e pequenos
Quero que fique notável
Por todos nossos terrenos
Responda com rapidez
Como se chama o mês
Que a mulher fala menos?

- Este mês eu não conheço 
Quem fez esta tabuada?
João Grilo lhe respondeu:
- Ora sebo, camarada
Pra mim perdeu o valor
Ter o nome de professor
Mais não conhece de nada

- Este mês é fevereiro
Por todos bem conhecido
Só tem vinte e oito dias
O tempo mais resumido
Entre grandes e pequenos
É o que a mulher fala menos
Mestre, você está perdido

- Seu professor, me responda
Se algum tempo estudou
Quem serviu a Jesus Cristo
Morreu e não se salvou
No dia que ele morreu
Seu corpo o urubu comeu
E ninguém o sepultou?

- Não conheço quem é esse
Porque nunca vi escrito;
João Grilo lhe respondeu:
- Foi um jumento está dito
Que a Jesus Cristo servia
Na noite que ele fugia
De Belém para o Egito.

João Grilo olhou de um lado
Disse para o diretor:
- Fique sabendo o senhor
Sem dúvida exame não fez
O aluno desta vez
Ensinou ao professor.

João Grilo foi para casa
Encontrou sua mãe chorando
Ele então disse: - Mamãe
Não está ouvindo eu cantando?
Não chora, cante mais antes
Pois o seu filho garante
Pra isso vive estudando.

A mãe de João Grilo disse:
- Choro por necessidade
Sou uma pobre viúva
E tu de menor idade
Até da escola saíste;
João lhe disse: ainda existe
O mesmo Deus de bondade

— A senhora pensa em carne
A cinco mil réis o quilo
Ou talvez no meu destino
Que à força hei de segui-lo?
Não chore, fique bem certa
A senhora só se aperta
Quando matarem João Grilo.

João chegou no rio
Às cinco horas da tarde
Passou até nove horas
Porém tudo foi debalde
Na noite triste e sombria
João Grilo sem companhia
Voltava sem novidade.

Chegando dentro da mata
Ouviu lá dentro um gemido
Os lobos devoradores
O caminho interrompido
E trepou-se num pinheiro
Como era forasteiro
Ficou calado escondido.

Os lobos foram embora
Mas João não quis descer
Disse: - Eu dormirei aqui
Suceda o que suceder
Eu hoje imito araquã
Só vou embora amanhã
Quando o dia amanhecer.

O Grilo ficou trepado
Temendo lobos e leões
Pensando na fatal sorte
E recordando as lições
Que na escola estudou
Quando do súbito chegou
Uns quatro ou cinco ladrões.

Eram uns ladrões de Meca
Que roubavam no Egito
Se ocultavam na mata
Naquele bosque esquisito
Pois cada um de per si
Que vinha juntar-se ali
Para ver quem era perito.

O capitão dos ladrões
Disse: - Não falta ninguém?
Um respondeu: - Não senhor
Disse ele: - Muito bem
Cuidado, não roubem vã
Vamos ajuntar-nos amanhã
Na capela de Belém.

— Lá partiremos o dinheiro
Pois aqui tudo é graúdo
Temos um roubo a fazer
Desde ontem que estudo
Mas já estou preparado;
E o Grilo lá trepado
Calado e escutando tudo.

Os ladrões foram embora
Depois da conversação
João Grilo ficou ciente
Dizendo em seu coração:
Se Deus ajudar a mim
Acabou-se tempo ruim
Sou eu quem ganho a questão.

João Grilo desceu da árvore
Quando o dia amanheceu
Mas quando chegou em casa
Não contou o que se deu
Furtou um roupão de malha
Vestiu, fez uma mortalha
Lá no mato se escondeu.

À noite foi pra capela
Por detrás da sacristia
Vestiu-se com a mortalha
Pois a capela jazia
Sempre com a porta aberta
João Grilo partiu na certa
Colher o que pretendia.

Deitou-se lá num caixão
Que enterrava defunto
João Grilo disse: - Hoje aqui
Vou ganhar um bom presunto;
Os ladrões foram chegando
João Grilo observando
Sem pensar em outro assunto

Acenderam um farol
Penduraram numa cruz
Foram contar o dinheiro
No claro de uma luz
João Grilo de lá gritou:
- Esperem por mim que vou
Com as ordens de Jesus!

Os ladrões dali fugiram
Quando viram a alma em pé
João Grilo ficou com tudo
Disse: - Já sei como é
Nada no mundo me atrasa
Agora vou pra casa
Tomar um rico café!

Chegou e disse: - Mamãe
Morreu nossa precisão
O ladrão que rouba outro
Tem cem anos de perdão;
Contou o que tinha feito
Disse a velha: - Está direito
Vamos fazer refeição.

Bartolomeu do Egito
Foi um rei de opinião
Mandou convidar João Grilo
Pra uma adivinhação
João Grilo disse: Eu vou,
No outro dia embarcou
Para saudar o sultão.

João Grilo chegou na corte
Cumprimentou o sultão
Disse: - Pronto, senhor rei
(deu-lhe um aperto de mão)
Com calma e maneira doce
O sultão admirou-se
Da sua disposição.

O sultão pergunta ao Grilo:
- De onde você saiu?
Aonde você nasceu?
João Grilo fitou ele e sorriu
— Sou deste mundo d'agora
Nasci na ditosa hora
Que minha mãe me pariu.

— João Grilo, tu adivinha?
E Grilo respondeu: - Não
Eu digo algumas coisas
Conforme a ocasião
Quem canta de graça é galo
Cangalha só pra cavalo
E seca só no sertão.

— Eu tenho doze perguntas
Pra você me responder
No prazo de quinze dias
Escute o que vou dizer
Veja lá como se arruma
É bastante faltar uma
Está condenado a morrer!


João Ferreira de Lima
Nascido em Pernambuco, na pequena cidade de São José do Egito, em 3 de novembro de 1902, João Ferreira de Lima é uma figura peculiar da segunda geração de cordelistas, pois se destaca pela publicação de um almanaque popular nordestino, intitulado Almanaque de Pernambuco (1936) e também por, além da sua intensa produção como poeta, atuava como astrólogo. João Ferreira Lima é responsável por alguns clássicos da literatura de cordel como os folhetos Proezas de João Grilo e Romance de Mariquinha e José de Sousa Leão.

 

Agora é sua vez de escrever um belo cordel, escolha um tema e um personagem e boa produção. Não esqueça a Xilogravura.

Minhas sugestões para trabalhar o cordel professor

1. Leitura e Interpretação

  • Objetivo: Compreensão de texto, identificação de figuras de linguagem, análise do personagem.
  • Atividades:
    • Leitura em voz alta, em duplas ou grupos.
    • Debater quem é João Grilo e o que o torna um anti-herói popular.
    • Identificar o tom humorístico e as críticas sociais presentes.

🧠 2. Análise Literária

  • Temas para discussão:
    • Astúcia e esperteza como forma de sobrevivência.
    • A relação do povo com as figuras de autoridade (padre, rei, português).
    • A crítica social presente nas ações de João Grilo.
    • Tradições orais e o papel do cordel na cultura nordestina.

🎭 3. Teatro e Encenação

  • Objetivo: Estimular expressão corporal e oralidade.
  • Atividades:
    • Dividir os alunos em grupos e pedir que encenem trechos do cordel.
    • Criar figurinos e cenários simples.
    • Adaptar a linguagem para o contexto atual, sem perder o humor e a essência.

✍️ 4. Produção de Texto

  • Sugestões:
    • Criar um novo “causo” de João Grilo em ambiente moderno (ex: João Grilo na internet, ou João Grilo e a tecnologia).
    • Escrever uma carta de desculpas do padre para João Grilo, ou vice-versa.
    • Fazer um diário do próprio João Grilo.

🎨 5. Artes Visuais

  • Atividades:
    • Criar xilogravuras inspiradas no cordel.
    • Produzir uma capa ilustrada para o cordel.
    • Fazer tirinhas com os episódios mais engraçados ou simbólicos.

🧩 6. Jogos e Dinâmicas

  • Sugestões:
    • Quiz sobre o texto, com perguntas sobre personagens, ações e consequências.
    • Jogo de "Quem disse isso?" com falas do cordel.

🎧 7. Multimídia

  • Sugestões:
    • Gravar áudios em estilo de cantoria nordestina, narrando os causos de João Grilo.
    • Criar um podcast com os alunos comentando o cordel e entrevistando “personagens”.

 

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